
Eu não consigo parar de beber! Sinto que a realidade me tem passado ao lado. E hoje, que mal suporto o peso da consciência, em breves horas de lucidez, quero-vos pedir perdão pelo mal que vos vou causando, a vocês Ex. Mulher e Ex. Filhos.
A garganta inflama-se com as palavras quentes e sufocantes que teimam em não sair, que me vão queimando as células, rebentando-me esta débil cabeça, que cede a pressão no momento em que mais uns quantos copos se derramam goela abaixo, toldando o meu pensamento.
Tudo começou algures um dia bem distante, não me perguntem pois eu não me lembro, se terá sido num dia de fraqueza ou de euforia: vai mais um copo com um amigo, no outro dia mais dois copos com dois amigos, no terceiro dia, já são três os copos, até que as somas de copos transformou-se em multiplicação em que o show dos meus espectáculos, saturou os acompanhantes e eu um a um fui perdendo os amigos, mas como “bónus” ganhei; uma montanha de copos, vazios...
De novo vos digo, pelo que bebi não sei, mas sei por que hoje continuo a beber, para tentar esquecer todo o mal que vos fiz, tentar esquecer a dor da vossa ignorância apesar da vossa razão.
Ainda me lembro de quando éramos inseparáveis: com alguns problemas, algumas dificuldades, facilmente ultrapassáveis, era assim, tínhamos a força de uma verdadeira família: que chorava pouco e que ria muito, que caía por vezes, mas sempre se levantava e cada vez com mais vontade de se afirmar, porque o laço amoroso era forte e destemido.
Neste amontoado de cacos, penso no caos, que a minha vida se encontra e em tudo o que aprontei até hoje, também nesta violência que me cega e desfaz por completo a remota hipótese de remissão que eu poderia ter, culpo-me pela fragilidade e pelo álcool, que me embriaga e me deu esse direito de agredi-los física e psicologicamente, infernizar-lhes a vida de tal modo que, a vossa saturação acabou por me deixar só.
Quantas vezes já atirei a garrafa, cheia, meia, ou vazia contra a parede com toda a raiva, afirmando para mim próprio, que o pesadelo tinha que acabar e que era o último gole. Quantas vezes já pensei o suicídio, no entanto, ainda me lembro, quando a fraqueza perdia para a coragem e agora a coragem momentânea é apenas a fraqueza de um traste.
Hoje a balança avariou tal o peso das coisas negativas, que ganhei; num prato ponho os ganhos: algumas doenças sem solução, vícios sem fim, o desrespeito, o riso para o palhaço, que criou o seu próprio “circo” em que o espectáculo é cambalear pelas ruas, alvo de toda a troça.
No outro prato o que eu perdi: a casa, o carro, os amigos, o respeito e o principal, o que me enlouquece a cada segundo de lucidez, excepto quando tropeço e caio, adormecendo em qualquer parte, carregado de álcool, então acordo e de novo, o principal, aqueles que eu não soube defender e em vez disso: escorracei, pisei, subjuguei e desamei.
A ti Ex. Esposa e a vocês Ex. Filhos, desculpem-me por eu sempre ter pensado que os doentes eram vocês e não eu. Ao aceitar o meu erro quero que, refaçam as vossas vidas, se possível, esqueçam os traumas que vos causei, sejam muito felizes, porque eu amo-vos de todo o coração, mas como todo o coração é pouco, peço-vos de novo, perdão.
Completo agora esta carta, rascunhada há algum tempo atrás, mas que só hoje tem sentido e que envio, não pede pena, apenas quero dizer que estou há três meses sem beber, estou a tentar de novo os AA (Alcoólicos Anónimos), podem pensar que é mais uma tentativa falhada e talvez tenham razão, mas se existe no vosso peito uma ténue, morna, mas boa lembrança de mim, mais uma vez vos imploro, ajudem-me!!..
Ficção— de Jorge Vieira Cardoso
Realidade de alguém, anónimo “sem rosto”