23/02/2008

Divagando



Semicerro as luzes que o cílio cobre, são olhos transparentes que ocultos reflectem a ânsia de ter o Universo e o Deserto por perto, conjugados na procura de uma estância madura de gente que sente o Orbe para além da mente.

Ajoelho-me a teus pés e rezo, estendo a minha mão até à ponta dos teus dedos, se me solto deixa-me elevar neste fado de asas inquebráveis, que na melodia dos ventos vou voando, vou planando.

Desço das alturas dos Anjos que nos cumes das montanhas oram, repasto-me das vontades subjacentes à concórdia e à discórdia, se sou louco? Também o foste! Acomoda-te no nosso atalho, assim vizinhos os dois deixamos correr nas veias, cicatrizes que divididas a meias desofuscam a sombra e dão brilho às nossas candeias.

09/02/2008

Aquém de nós

Se fosse possível eu não andava, corria, corria atrás de ti, tempo perdido. Tenho a certeza que te havia de encontrar, algures escondido no labirinto dos anos, dos dias, das horas, talvez, mas nesta actualidade de tempo usufruo desta convicção que o meu Sol me ia guiar até ti. – Passado.


Começava hoje a recuar na idade do erro, a remover o entulho, num alisar do caminho que circunda os meus olhos, desenrugaria o rosto e só “descansaria” em Agosto.


E em Setembro continuaria, os sete Mares eu sulcaria. Não me resignaria à vontade dos dubitativos Deuses e correria outra vez sem o esgano do amargo fel, massajaria as minhas pernas de bálsamo e o meu peito de mel, quebraria o aperto que me asfixiou numa vida assistida de lado errado. – Calado.


Do bichinho do betão, arrancaria num arriscado contra-mão, acordado nas horas que dormi a mais, recuaria de Avião de TGV e sei lá mais o quê?


O importante era chegar, aquele mesmo lugar, ali, onde todos os sonhos pararam, e os meus remos encalharam, onde no facilitar adormeci com medo de seguir o trilho, que me levava até ti. – Outra vida.


Chegado àquela linhagem, sem tenção na bagagem, levantar-me-ia do plátano onde hipnotizei a paz, desenterraria a rede das algas, exibiria o troféu nas minhas palmas, semearia pela terra a origem em farta faina e germinado, só assim poderia regressar aqui, e na verdade ser o que não fui. – Achado.

25/01/2008

Delírio Intimíssimo




Deixa-me ser, o botão da tua blusa, aberto pela mão que ousa fazer crescer as pétalas a norte do teu despir.

Deixa-me ser, o fecho das tuas calças, que pela magia do vento, já sem medo desse momento, ousado deixa-se cair.

Deixa-me ser, o teu dia que fluí. Na tua cama o teu jardim. No teu lençol aquela mancha.

Deixa-me ser, os lábios que íman aos teus. A tua frescura e o meu suor. O nosso contacto e o teu tremor.

Deixa-me ser, a tua ansiedade abstracta. O sal do teu Planeta cru. A tua querença e o teu nu. No esfregar que quase “mata” ser a unção de pastel de nata.

Deixa-me ser, o enroscar da leviandade de dois amantes esculpidos pela ansiedade. E num derreter de energias e sussurros, consumir mais do que dois dias de chorados, quase mudos.

Deixa-me perpetuar este momento, de quem não está fora e se encontra dentro, de parceiras se desuniram e sem impedimentos sentiram aquilo que fluíram.

Deixa-me ficar um pouco nas profundezas do teu Oceano. Reabrir os olhos e ver as tuas linhas de baixo acima, descobrir nelas o plano, desvendar o enigma, enganchar de novo a âncora em teu barco já sem quilha e num gemido final acostá-lo na minha ilha.

carrego o leme da saudade a preto e branco do meu horizonte!

espumo o delírio e esfrego o convés!

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